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«1 TESTA BRANCA, O TROPEIRO Alfred Reitz* Aconteceu no altiplano, no oeste de Santa Catarina. Desencilhei meu cavalo diante da pequena venda rural. Ao ...»

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Será que o que eu estava a observar era mesmo uma mudança no comportamento de minha mulher?

Ela estava distraída e dava respostas monossilábicas. Conclui que deveria ser conseqüência da solidão e sugeri que partilhasse por algumas semanas a vida do acampamento comigo; seria fácil arrumar um abrigo adequado. Ela recusou categoricamente e considerou a ideia extravagante.

Aborrecido, viajei no dia seguinte. Minha mulher já tinha ido até o galinheiro, sem esperar que eu me despedisse; isso ela nunca havia feito antes.

A explicação não tardou a chegar. Um dos trabalhadores poloneses costumava embriagar-se durante o trabalho, de modo que tinha de mandá-lo até o barracão para se recuperar. Nessa semana, quando o episódio aconteceu pela segunda vez, ameacei despedi-lo, caso o encontrasse mais uma vez embriagado no trabalho. Afinal, um bêbado podia pôr em risco a vida de uma dúzia de operários durante os trabalhos de explosão. Ébrio e cheio de ódio, o sujeito jogou-me na cara que eu não o ameaçaria, se minha mulher não fosse amante do diretor; eu estaria era como ele na estrada com pá e picareta.

Foi uma tapa no meu rosto que me roubou a consciência. Atirei-me a ele e o teria estrangulado, se não o tivessem arrancado das minhas mãos. O capataz puxou-me pelo braço quase com violência, acalmando-me até chegar à minha tenda: que eu não devia levar a sério as palavras do homem; que se dizia que sua mulher já tinha atendido diversas vezes o diretor. E que isso devia ser verdade, porque se não, de onde viriam os vestidos de seda, as meias, os sapatos coloridos de verniz? - A esta altura, também se tornou claro para mim o caso do relógio valioso, que minha mulher dizia ter sido um prêmio lotérico. Era, naturalmente, um presente do diretor e, para disfarçar ele tinha inventado a história da loteria. No caso da polonesa, haviam bastado vestidos de seda e sapatos de verniz, no caso dela teve de ser algo mais valioso.

Agora, eu sabia que o bêbado tinha dito a verdade, e fiquei envergonhado do meu comportamento intempestivo. Quando o capataz se foi embora, examinei meu revólver, encilhei o cavalo e parti a galope. Cheguei a casa por volta da meia noite.

Estava tudo escuro e silencioso. Nenhum latido do cachorro que, quando eu não estava, nunca saía de perto da minha mulher, e que à noite ficava deitado no dormitório. Nem minhas batidas, nem minhas chamadas tiveram resposta. Então, dirigi-me à casa da direção. Também ali tudo estava escuro. Ao aproximar-me da varanda, um cão chega-se correndo, pulando e ladrando de alegria. Era Diana, nossa cadela. Agora eu sabia onde estava minha mulher. Sentia uma vontade quase incontrolável de arrombar a porta e enfrentar os dois. Mas, já nos primeiros degraus, me veio o pensamento-, que loucura: ele vai te tomar por um ladrão e te matar como a um cão raivoso.

Esperei o amanhecer na soleira de nossa casa. A cachorra deitada a meus pés. Foi a noite mais dolorosa da minha vida. Eu sentia-me como um condenado à morte, que quer adiar a data de sua execução e, por outro lado, deseja que tudo acabe logo. Ao amanhecer caí num sono leve e agitado.

Acordei, quando o cachorro se levantou latindo. Passos ligeiros contornavam a casa. No momento seguinte minha mulher, a cabeça envolta num xale, dobrou a esquina. Com um grito, recuou apavorada.

No mesmo momento fiquei de pé. Sem querer, segurei o revólver deixado a meu lado na soleira.

Um grito agudo ecoou: “Você quer matar-me!” Era a confissão da culpa. Então, ela virou-se para fugir. Em poucos passos alcancei-a e segurei-a pelo braço.

“Não, se você disser a verdade...” Ela gemeu e tentou libertar-se. Na casa em frente alguém abriu uma veneziana. Uma mulher de cabelos emaranhados olhava para nós. Era a mulher do operário polonês.

“Entre em casa, se não quiser oferecer um espetáculo interessante àquela ali”.

Ela obedeceu, tentou abrir a porta, mas a chave caiu-lhe das mãos trêmulas. Ficamos um diante do outro no quarto. Tudo em mim estava frio e morto. Nada mais restava do desejo de vingança, que me havia agitado durante a noite. A mulher encostada à parede, os olhos abertos cheios de medo,

parecia-me uma estranha. Com a frieza de um juiz de instrução, que apura os fatos, perguntei:

“Você passou a noite na casa do diretor?” Ela não respondeu, desviando a cabeça para evitar meu olhar.

“Então é verdade o que as pessoas falam, você é a amante do diretor?” “As pessoas?” “Sim, as pessoas. Ou você acha que é um acaso eu ter vindo hoje aqui? No meio da semana?” “Faça comigo o que você quiser”, retrucou de repente.

“Você o ama?” Amor teria sido uma desculpa. Ela comprimiu os lábios, como se quisesse evitar uma resposta. Vi como sofria. É possível que, naquele momento, se tenha conscientizado de todo o alcance de sua ação. Olhamo-nos em silêncio. Se, na ocasião, ela tivesse achado as palavras certas para um pedido de perdão, creio que a teria perdoado.

Na parede ao lado o relógio arrastava um tique-taque monótono. A mim parecia que dava forma sempre à mesma palavra “Já passou... já passou...”Não sei se minutos ou horas se passaram sob este tique-taque sempre igual? Não sei. Era tempo de terminar.

“Não nos veremos mais. Nossos caminhos se separam hoje. Você escolheu sua sorte. O que temos aqui é seu. Meus salários atrasados de três meses, também. Notificarei o consulado do que deve ser pago a você”. Dirigi-me para a porta. “Só levo o cachorro”.





Por um momento pareceu-me que ela queria erguer as mãos, implorando. Provavelmente, era um engano. Só a expressão desconcertada do seu rosto continuava.

No dia seguinte fui ao consulado. O cônsul protocolou meu pedido de divórcio.

“É curioso”, observou ele afinal, “como tantas mulheres mudam, ao cruzarem o equador. Há muito que dizer a respeito”.

O divórcio não deveria acontecer. Eu havia aceito a proposta de um brasileiro para supervisionar o corte da erva-mate em suas propriedades no interior. Por isso, só depois de alguns meses, recebi a notícia do consulado para apresentar-me e atender a um assunto urgente. Viajei até lá. O cônsul entregou-me uma carta. A letra era da minha mulher. Apenas poucas linhas. Um pedido de perdão e para não lhe guardar rancor. O cônsul esclareceu, então, estas linhas pouco compreensíveis: ela havia se suicidado. A polícia da cidade havia entregue a carta ao cônsul. Na polícia vim a saber do resto. Tinha sido encontrada ao lado de um banco, no parque; envenenada por cianeto.

A dona da pensão, onde havia morado, deu-me mais algumas informações. Um brasileiro havia alugado o quarto para ela na casa, mas nunca mais tinha aparecido. Ela havia tentado se sustentar dando aulas de francês, também tinha achado algumas alunas que, todavia, também tinham desaparecido. Algumas vezes, disse que tinha dinheiro a receber da empresa de seu marido. Seria suficiente para que ela pudesse voltar à Alemanha. Tinha escrito algumas vezes, mas o dinheiro não havia chegado. Não, não tinha deixado dívidas. Havia vendido, por fim, seu valioso relógio, para viver do arrecadado. Com o último dinheiro ainda tinha pago a pensão.

Visitei-lhe o túmulo. Um túmulo de pobre com um número. Providenciei a exumação e o translado para o cemitério da comunidade alemã. Ela não deveria dormir o último sono entre a escumalha da cidade grande.

O narrador cobriu por um instante o rosto com as mãos.

Do túmulo ainda fresco viajei para onde a tragédia havia se iniciado. Eu tinha uma conta a quitar, cujo recibo seria escrito com sangue. Mas nada mais restou para fazer. Meu antigo capataz contoume o que havia acontecido desde minha partida.

Ela não havia vivido com ele. Depois de pouco tempo, o diretor havia-a levado embora. Depois, ele tinha voltado com algumas famílias de imigrantes. Entre elas, havia um casal jovem recémchegado da Europa. Logo notaram que o diretor se interessou pela mulher ainda moça. O casal não tinham dinheiro para comprar uma colônia. O marido recebeu, então, um emprego bem pago na construção de estradas, ficava a semana toda fora trabalhando, ficando a mulher na central da colônia. A velha estratégia servia de novo ao mesmo objetivo. Para tornar a mulher complacente, ameaçou despedir o marido. O caso logo se tornou conhecido. Havia muitos olhos observando. O homem surrou a mulher, até que ela lhe implorou, em nome do filho e da Virgem Maria, para não a matar e para perdoá-la. Ele deixou-a, pegou a espingarda de cano duplo, carregada com chumbo grosso, e tocaiou o diretor numa curva do caminho. A cinco passos do Don Juan descarregou-lhe a carga da arma no abdomen. Quando o encontraram, estava agonizando. Sofreu durante três horas, plenamente consciente, até chegar o fim, tempo suficiente para arrepender-se. Nessa mesma noite, o italiano desapareceu com a mulher. Alguns patrícios ajudaram-no, provavelmente, a levar suas coisas. Quando a polícia chegou no dia seguinte, ele estava longe. Dizem que está no Paraná e, lá, está seguro.

O narrador silenciou. Amorosamente acariciou a cabeça da velha cachorra que dormia ao seu lado.

“Não sei, por que lhe contei tudo isso. Nunca falei com ninguém a este respeito. Mas uma noite como esta acorda coisas esquecidas. As sombras pálidas da lembrança erguem-se e fazem as cordas da alma vibrar. Foi numa noite cheia de luar e de perfume de flores que nos beijamos a primeira vez. Ambos tão jovens e cheios de esperança. Quantas vezes me perguntei: qual de nós dois, homens atingidos pelo mesmo destino, agiu corretamente? Aquele que seguiu cegamente seus instintos, ou eu? O bom senso quer me dar uma resposta: o parecer amadurecido, a experiência, todas essas competências, sob as quais se esconde o egoísmo do ser humano, ajudam-no. Assim mesmo uma voz interior sempre fala contra. Quem sabe o senhor pode me dizer: agi certo?”

A pergunta pegou-me inesperadamente. Refleti rapidamente e depois gaguejei:

“Só posso dizer que o senhor agiu de forma inteiramente correta”.

Um sorriso amargo desenhou-se na boca do “tropeiro”.

“Sim, corretamente! Certo. Correção, com isso calamos o coração, quando ele levanta a voz.Vamos deixá-lo descansar. Provavelmente, ninguém poderá dar a resposta certa”.

Nuvens de neblina formaram-se sobre o riacho do pasto.

“Está ficando frio. Também são horas de dormir, disse meu vizinho.

Estendemo-nos sobre as peles e nos enrolamos nos ponchos. O sol já despontava por cima dos pinheiros, que ladeavam o campo distante, quando acordei. A tropa estava quase pronta para partir.

O dono e os empregados estavam encilhando os últimos animais. Eu devia ter dormido muito profundamente, pois nem acordei com o barulho.

“Este cavalo preto aqui é o seu, não é? perguntou-me o “tropeiro”.

“Ele logo se juntou aos meus animais e veio com eles”.

Foi-me poupada uma longa procura pelo pasto coberto de orvalho. Coloquei o cabresto no cavalo e amarrei-o num poste.

O último animal da tropa estava encilhado. Cestos de vime haviam sido pendurados nos dois lados da sela. O “tropeiro” levantou a cachorra e colocou-a em um dos cestos.

“Ela ficaria pelo caminho, se eu a deixasse solta. Diana está velha demais para fazer viagens longas”.

Em seguida, amarrou o chapéu de abas largas sob o queixo.

“Fiquei contente em encontrar um patrício. Em geral, evito encontrar-me com pessoas. Não se perde nada com isso”.

A tropa estava pronta.

“Vamos”, ordenou o “tropeiro”.

Os empregados montaram. Dois colocaram-se na ponta, atrás deles seguiu a madrinha. Primeiro, uma grande confusão, cada animal tentava passar o próximo. Depois, a tropa se organizou. Um animal seguia o outro. O terceiro empregado fechava a tropa.

“Aqui está, a última tropa de erva-mate deste ano. Agora, fico doze meses na mata. Quem alguma vez se deixou pegar pela mata, não a deixa mais”.

Ele deu-me a mão e passou o braço pelos meus ombros de acordo com o hábito brasileiro.

“Não vou insistir num convite. Mas se seu caminho o trouxer mais uma vez para cá, o senhor será muito bem-vindo. São só dois dias de viagem daqui. Qualquer caboclo pode mostrar-lhe o caminho para meu Retiro. Basta perguntar pelo “tropeiro” Testa Branca. Até mais”.

De um salto subiu na mula. Ergueu a mão num cumprimento. Um sorriso melancólico desenhou-se em seus traços morenos.

“Também encilhei meu cavalo. Dois dias de viagem esperavam por mim. Tinha que me concentrar, se quisesse alcançar a tempo o trem para o norte”.

Durante a viagem, a pergunta do “tropeiro”: “ agi corretamente?” ainda me soava aos ouvidos.



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