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TESTA BRANCA, O TROPEIRO

Alfred Reitz*

Aconteceu no altiplano, no oeste de Santa Catarina. Desencilhei meu cavalo diante da pequena

venda rural. Ao perguntar ao comerciante, um sírio, onde ficava a entrada do pasto, ele apontou para

um imenso portão de varas, logo atrás do puxado.

„Qual o tamanho do pasto? Fechado?”

„Dez alqueires... quatro arames em todo redor”.

Dez alqueires! Uma área imensa. Diabos! Pela manhã bem cedinho provavelmente teria que procurar muito para achar meu cavalo. Pinheiros e mato baixo tiravam qualquer visibilidade. Mas deixar meu fiel cavalo preto a noite toda preso, teria sido uma tortura para o animal.

Custou algum esforço fechar novamente o pesado portão. Quando voltei, o lugar diante da venda fervilhava de cavalos e mulas. Tinha chegado uma “tropa”. A maioria dos animais – deveriam ser cerca de trinta – tinha os alforjes vazios, os restantes estavam carregados de sacos de farinha e sal, e caixas com petróleo. Uma tropa-de-erva-mate, que tinha levado erva do chá para a estação e agora voltava com as compras. Será que o homem alto, que não parecia brasileiro, era proprietário ou somente o condutor da tropa? Tal como seus três companheiros, tirou a cela dos animais.

„Uma garrafa de cachaça” pediu ele ao dono da venda, que trouxe rapidamente a caninha. O “tropeiro” molhou com ela as feridas abertas que alguns animais tinham nas costas. Os animais, liberados de suas cargas, rolavam cheios de bem estar pelo chão. Em seguida, aos berros, os empregados fizeram os animais passar pelo portão. Estes seguiram a égua-madrinha que usava um chocalho e espalharam-se pastando por entre as clareiras dos pinheiros.

Quando escureceu, o comerciante chamou para o jantar colocado sobre o balcão da loja. De ambos os lados havia bancos onde os hóspedes se acomodaram. Aos pés do “tropeiro”, veio deitar-se uma cadela da raça pastor, que se levantou de novo com alguma dificuldade para me vir cheirar. Deixou que eu lhe acariciasse a cabeça longa e estreita. Um leve sorriso aflorou nos lábios do “tropeiro”.

“Diana”! O animal voltou para o lado de seu dono, que lhe empurrou um grande prato com comida.

Examinei discretamente o homem à minha frente. A partir de algumas observações pude concluir que o homem alto era, de fato, o proprietário da “tropa”, que representava um belo e nutrido capital.

“Vocês não têm luz? Já quase não se pode achar o prato”, disse o “tropeiro”.

A luz da pequena lâmpada, que o comerciante trouxe obsequioso, permitiu-me perscrutar melhor o rosto do homem à minha frente. Traços delineados energicamente, que não combinavam com os * Tradução de Karola Zimber; revisão de Celeste Ribeiro de Sousa. Reitz, Alfred. Testa Branca, der Tropeiro. In: SerraPost-Kalender. Ijuí, Löw, 1950, p.205-224.

olhos escuros, o olhar sonhador. Dos olhos para baixo o rosto era bronzeado. A testa branca destacava-se de modo curioso do tom amorenado. O homem deveria estar no começo dos quarenta.

Com um boa noite os empregados deixaram o lugar. O homem à minha frente enrolou e acendeu um cigarro de palha de milho. Pensativo, soltou uma baforada aromática.

“O que o trouxe a este canto perdido do Brasil?” perguntou-me ele de repente em alemão.

“Um patrício? Nunca imaginei”.

“Não dá para ver? Claro, claro, quando se está metido no mato há dez anos! Mas, no seu caso, logo percebi pela primeira palavra que trocou com o sírio, que se tratava de um patrício”.

O comerciante havia recolhido a louça. Camas não havia.

“Acomodem-se no balcão”, convidou o sírio.

O homem à minha frente mediu com os olhos o comprimento da mesa desajeitada.

“Nós dois?... Então vamos ter que dobrar os joelhos com vontade. Prefiro deitar-me na varanda para dormir”.

Eu era da mesma opinião. A permanência naquela lojinha, com variados odores a petróleo, peles secas e feijão mofado não era, por Deus, convidativa.

As mantas e os ponchos no chão seco da varanda eram um leito bem melhor que o balcão da loja.

Sentados nas mantas, encostados à parede da casa, tomamos nosso mate e desandamos a conversar.

O objetivo da minha viagem, de acordo com as instruções de um proprietário de terras, era verificar quantos “intrusos” estavam assentados nas áreas entre o rio Três Voltas e o rio Santa Theresa. Por “intrusos” entenda-se pessoas que se instalam em terras que não lhes pertencem. Minha tarefa despertou o interesse do meu companheiro.

“Por que o homem quer saber isso?” “Fala-se de um projeto de colonização com imigrantes”.

“Naquelas terras lá? Terras miseráveis, só pinheiros e erva-mate. O pessoal vai morrer de fome ali.

O senhor deixou que os “intrusos” percebessem qual é sua tarefa?” Respondi negativamente; o proprietário das terras tinha insistido enfaticamente, para que eu nada dissesse ao pessoal sobre seus objetivos.

“Nisso o senhor fez bem. Se os caboclos tivessem percebido do que se tratava, teriam lhe aplicado ‘a gravata vermelha’”. E fez o gesto da degola.

“As pessoas recusam-se a sair das terras, mesmo quando estas não lhes pertencem. Tenha cuidado.

Talvez posso ajudá-lo, conheço toda a região até a fronteira. O que o senhor conseguiu saber até agora?” Tirei meu livro de anotações e mencionei o nome das famílias que havia localizado.





“Está mais ou menos certo. Faltam aqueles lá junto aos dois rios”.

“Eu pretendia ir lá amanhã”.

“Posso poupar-lhe a viagem. Sei mais ou menos de todos os que lá se estabeleceram”.

Pensou um pouco. Murmurou alguns nomes a meia voz. E eu anotei diligentemente. O encontro com o tropeiro havia-me poupado, de fato, uma cavalgada de três dias por uma região pouco segura.

“Se o seu cliente quer realmente colonizar, deve chegar logo com um pelotão de policiais e algumas metralhadoras. Senão ele não vai conseguir remover os “intrusos”. Diga-lhe que o “tropeiro” Testa Branca mandou-lhe dizer isso. Talvez já tenha ouvido falar dele”.

Acendeu um cigarro recém enrolado e olhou para a paisagem bela e encantadora que se estendia à nossa frente. Além dos pinheiros, que se destacavam negros contra o céu azul do anoitecer, a lua tinha aparecido como um grande disco luminoso. Um brilho prateado estendia-se sobre árvores e arbustos. O vento leve, que chegava até nós, trazia consigo um aroma doce, pesado, quase inebriante.

“Testa Branca”! O nome eu já tinha ouvido. Era esse, afinal, o estranho alemão, que morava no meio da floresta virgem entre os caboclos! Provavelmente estes haviam lhe dado o apelido pelo qual era largamente conhecido, devido à sua testa branca.

“Como é perfumado o lilás”. Sua voz era de uma suavidade fora do comum.

“Lilás?” “Lilás..., não, ele não existe aqui”. Passou a mão na testa.

“É o cipó, essa planta trepadeira que, ali adiante, se enrosca na árvore de canela... ele está em flor.

Que aroma ! Estranho como estes aromas despertam lembranças”.

Arrisquei uma pergunta; considerei que essa vida na mata para uma pessoa acostumada à cultura, é como ser enterrada vivo.

“Assim se pensa quando não se conhece a mata”, respondeu. Havia ironia na sua voz. “Pode ser correto para aqueles que só vêem “vida” na agitação da cidade grande... Mas sua pergunta deixa transparecer outra coisa. O senhor gostaria de saber o que me levou a penetrar tão fundo na mata.

Não é?” Meio sem graça, não respondi.

“Porque não lhe contar”, continuou.

“Não sou um foragido da justiça, como muitos aqui na floresta. Certamente, quando deixei minha velha pátria, nunca imaginei que minha vida ficaria assim. Depois da Grande Guerra, eu não tinha perspectiva de existência, nem sequer do pão de cada dia. Mas no mundo lá fora ainda deveria existir espaço e pão. Portanto, escrevi a um colega de escola, que já havia emigrado antes da guerra. Sua resposta prometia montanhas de ouro. Porém, quando nós, eu e minha mulher, chegamos à terra prometida, a situação era bem outra. A brilhante posição de engenheiro que ele supostamente ocupava, não passava de um cargo de propagandista de uma sociedade colonizadora.

Quando certa vez mencionei isso, referiu-se a algo de uma lista negra dos ingleses, devido à qual havia perdido sua posição durante a guerra. Não consegui encontrar um trabalho adequado. Para que serviam todos meus conhecimentos, se eu não falava a língua do país. Meu colega de escola, Brecht, aconselhou-me com insistência a ir para a colônia, lá eu encontraria antes algo apropriado.

Finalmente, não restou outra coisa, se não gastaríamos todo nosso dinheiro com a eterna espera no hotel.

O diretor da empresa de colonização em cujas terras nos estabelecemos, era um jovem no início dos trinta. Diziam que era filho de um fazendeiro fracassado; devia o posto a relações familiares.

Entendia um pouco de alemão, mas não falava. Somente - menina bonita, mulher linda – era o que se ouvia dele com freqüência. Entretanto, falava francês brilhantemente. Seus pais tinham outrora vivido em Paris, e ele tinha sido educado lá. Diziam que era casado, mas ninguém sabia onde vivia sua mulher.

Comprei uma colônia com 3.000 pés de café. Plantação velha que não dava mais uma colheita plena. Mas, à época, os preços do café em grão ainda eram altos, prometendo bons ganhos. A vida livre me agradava, eu era independente. Só minha mulher não conseguia se adaptar, ela era da cidade, nunca tinha vivido no interior. Algumas vezes, quando acompanhava um grupo de imigrantes, Brecht nos visitava. Ele ouvia as queixas da minha mulher e prometeu ajudar. Um dia, representando o diretor da associação, ofereceu-me um posto de chefia na construção de uma rodovia. Já estava mais familiarizado com a língua da terra. Brecht sugeriu que minha esposa fosse comigo, para ajudar com seu francês que falava bastante bem, pois ele não sabia se poderia estar presente para atuar como intérprete.

Na manhã do domingo seguinte apresentamo-nos ao diretor da colônia. Ele recebeu-nos com a amabilidade sedutora característica do brasileiro educado. Verifiquei que, infelizmente, meu português era ainda bem deficiente, por isso toda negociação foi feita em francês por intermédio da minha mulher. Chegamos rapidamente a um acordo. O diretor garantiu-me um salário que excedia todo o rendimento anual da colônia. Para o trabalho acordado, meus conhecimentos do polonês foram de valia, pois a maioria dos trabalhadores eram poloneses que, com o trabalho na estrada, pagavam por suas colônias.

O diretor pôs livremente à nossa disposição uma casa, não distante do edifício da direção. Ele não acreditava, pensava ele, que minha mulher quisesse morar sozinha na colônia distante. Pouco depois mudamos. Minha colônia foi adquirida por um italiano. Ele me reembolsou a entrada e assumiu a divida restante.

A casa colocada à nossa disposição era espaçosa e estava em boas condições. Minha mulher soube torná-la bem confortável com poucos recursos. Podíamos estar satisfeitos com nossa situação. Meu local de trabalho distava cerca de 20 quilômetros da direção. Isso significava que eu tinha que viajar segunda-feira pela manhã e só voltava para casa no sábado ao anoitecer. Eu estava ausente a semana toda. Passávamos o domingo juntos.

Assim passou a metade do ano, eu tinha aperfeiçoado bem meus conhecimentos do brasileiro. Ao término da construção da estrada, o diretor acenou com outro trabalho. Nosso futuro parecia garantido.

Um sábado, quando voltei do acampamento, minha mulher me surpreendeu com a comunicação que havia ganho o primeiro prêmio em uma loteria beneficente em São Paulo. Mostrou-me um estojo de couro trabalhado artisticamente. Sobre veludo azul repousava uma larga pulseira de ouro onde estava embutido um relógio de senhora. O relógio estava guarnecido de pequenos brilhantes, presos por um anel de platina. De qualquer forma era uma peça muito valiosa, não acessível a mortais comuns.

Olhei espantado para ela: ‘Você não me disse nada sobre a compra de um bilhete de loteria. E de uma loteria beneficente. Só posso te dar parabéns por ter tido tanta sorte’.

Então, ela me relatou como tinha chegado a isso; ela havia-se esquecido completamente de me contar. No mês anterior, ao entregar o meu relatório de despesas no escritório, o diretor tinha colocado 10 bilhetes em sua mão. Sua irmã, a esposa de um rei do café paulista, era presidente de uma comissão que tinha como objetivo construir um lar para crianças abandonadas. Para promover a construção, o governo havia permitido uma loteria. Sua irmã o tinha obrigado a comprar 100 bilhetes e, como ele sabia que nunca costumava ganhar na loteria, presenteou-lhe as cartelas. Outros poderiam ter mais sorte do que ele. E assim tinha acontecido. No dia retrasado, o diretor tinha voltado de São Paulo e contado que um dos seus bilhetes tinha ganho o primeiro prêmio, e tinham lhe entregue o relógio, para dá-lo ao vencedor.

Um estranho sentimento se apoderou de mim: seria verdade o que ela estava contando para justificar a posse desse precioso relógio ou...? Reparei que ela olhava e falava para além de mim.

‘Parece que você não está lá muito contente com minha sorte na loteria’.

Havia um tom impertinente em sua voz.

Por que não deveria estar? Só que a sorte pôs no seu colo algo que lhe é de pouco utilidade. É um relógio para a mulher de um milionário, que se pode envolver em sedas e rendas, mas não para a mulher de um simples construtor de estradas como eu sou. Venda-o e, com o dinheiro, pode comprar muitas coisas que lhe sejam úteis.

“Eu já disse que o ganhei na loteria”, respondeu ela irritada e não com muita lógica. “Posso, portanto, fazer com ele o que bem me agradar”.

“Naturalmente que pode. Mas por que esse jeito nervoso...? Não lhe estou dando nenhumas ordens... No entanto, gostaria de lembrar-lhe algo... Se você usar esse relógio com roupa de uso diário, o resultado será o de uma figura grotesca, como se um cozinheiro trabalhasse de gravata de seda, adornada com um grosso alfinete de brilhantes”.

“Lá vem você de novo com outra de suas ideias...” Num movimento rápido, pegou o relógio e colocou-o no armário. “Por mim pode embolorar aqui!” E, irritada, saiu do quarto.



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